Os 4 Anjos: Asas de fogo no céu.



“Chega quase a ser uma piada, mas na verdade, as tão celebradas asas de fogo que viraram moda entre os outros pelotões da brigada de São Marcos foram criadas em um momento em que estávamos realmente sem escolha alguma. Aquilo foi uma insanidade de Miguel e o fato de ser repetida com esta frequência me faz concluir que esta guerra é muito mais insana do que eu acreditaria”.

Manuel dos Anjos.





Esta é, como nos foi narrada pelo próprio Manuel dos Anjos e depois editada nos anais da Guerra dos Espólios, a história da criação do artefato explosivo chamado asas de fogo, que fazem chover vidro, fogo e desespero em cima dos inimigos.



“A ideia é relativamente simples: você atira uma garrafa de aguardente crua (mais espessa e de concentração de álcool muito maior que a já pronta) com uma tocha de pano acesa na ponta para cima, na direção dos seus inimigos e então a acerta. A chuva de vidro e fogo é muito eficiente, embora horrível de se ver.
Miguel criou este dispositivo demoníaco quando estávamos cercados por tropas Neogalicianas, em uma destilaria no meio do maldito nada. Tínhamos roubado um carregamento de suprimentos das tropas Neogalicianas e estávamos voltando para nossa Base em Fortuna, mas a mais de duas horas de viagem antes da província fomos localizados por um destacamento de cavalaria deles. Não sabia que uma diligência era capaz de correr tão rápido. 

Os cavalos estavam praticamente mortos quando chegamos à destilaria, mas até que nossa chegada foi bem vinda, pois a pequena fábrica já tinha sido saqueada pelas tropas Neogalicianas mais de uma vez. Na verdade, eles cobravam um “imposto”, que envolvia a esposa e as filhas do dono, para não destruir tudo.
Não nos fizemos de rogados. Além de oferecer parte das rações para eles, nos prontificamos a defender o alambique naquele momento.

Miguel sempre foi, desde sempre, um beberrão inveterado. Mal chegou eu o vi salivando e quando ele colocou uma garrafa nos lábios e cuspiu, foi motivo de piada para todos. Aquela aguardente estava crua ainda, Grossa feito melaço e com um potencial alcoólico que fazia dela algo impossível de ser bebido.
Ele sorriu com a ideia e perguntou ao dono se havia uma claraboia.

Deixamos Serafim e Gabriel defendendo a família e fomos, eu e Miguel. Para cima, com mais de 20 garrafas de um litro de aguardente crua e dois lençóis que ele tinha pedido aos donos da casa.
-Miguel, você sabe bem que vamos morrer hoje, defendo esta maldita destilaria, o que você quer fazer? Eu já tinha feito minhas pazes com a morte e esperava que ela viesse logo.

-Não posso morrer aqui, chefe vou cumprir meu tempo e voltar vivo. Era a primeira vez que Miguel estava racional e sóbrio, e então percebi que ele só se acalmava e pensava racionalmente quando a crise era iminente.

Eu o vi abrindo a primeira garrafa e colocando o pano, já devidamente encharcado daquela substância que mais parecia mel e tinha um cheiro absurdamente forte, e então sorri. Talvez ainda tivéssemos alguma chance.
créditos : shabazik


Talvez.

A noite era sem lua e os tiros eram difíceis, errei uns dois ou três, e isto se provou ainda mais interessante, já que as que eu acertava faziam ainda mais estrago quando caiam por causa do produto no chão. Queimamos vivos, eu e Miguel, Cerca de 20 cavaleiros Neogalicianos antes que eles desistissem da ideia. Quase acabamos com o estoque de mais de 100 litros de aguardente do homem, e infelizmente sua esposa tomou um tiro dos soldados. Não temos ideia se ela sobreviveu.

Depois disto, e das histórias terem se espalhado sobre asas de fogo que faziam chover vidro e morte sobre os adversários, vários casos de ataques deste tipo, feitos por tropas nossas e por bandoleiros, se espalharam.

Não me orgulho do que fiz, mas todos tínhamos o desejo maior de viver do que de sermos honrados.”

“Chega quase a ser uma piada, mas na verdade, as tão celebradas asas de fogo que viraram moda entre os outros pelotões da brigada de Sã...

0 comentários: